Pesquisas do governo mostram brasileiros descrentes com inocência do presidente

“Eu acho que é muito feio para a imagem do Brasil um presidente envolvido em tanta corrupção”. Esta é a afirmação de uma das pessoas entrevistadas pelo governo em pesquisas que buscaram saber a opinião dos brasileiros “a respeito da crise política iniciada após as denúncias do Ministério Público Federal”. As consultas qualitativas foram em junho e julho passado, após as últimas “delações do empresário da JBS”.

As duas pesquisas foram realizadas pela empresa Virtu Análise e Estratégia, a pedido da Secretaria de Comunicação (Secom), por meio do contrato com a empresa vigente desde 2013 para “prestação de serviços de pesquisa de opinião pública, compreendendo planejamento e realização de projetos de pesquisa qualitativa”. Desde janeiro, foram R$ 380 mil pagos pela Secom à empresa para pesquisas, conforme aponta o site da transparência do governo federal.

As pesquisas, realizadas em São Paulo, Belo Horizonte, Belém, Recife, Florianópolis e Goiânia, foram estruturadas de modo a obter retorno do público sobre o momento atual e a preocupação com o futuro; as percepções sobre a crise política; levantar as “lembranças sobre a denúncia do Ministério Público e a gravação da conversa envolvendo o Presidente da República”; avaliar o conteúdo do pronunciamento realizado pelo presidente Temer (PMDB) à época.

Descrentes quanto ao futuro político e econômico do país, os entrevistados, e, ambas as pesquisas, abordaram de forma negativa o envolvimento de Temer nas denúncias de corrupção. Conforme aponta um dos levantamentos, o “clima predominante entre os participantes continua sendo de desânimo e falta de esperança. Os cenários econômico e político permanecem gerando abatimento e descontentamento geral”.

O ponto central do cenário de “incertezas econômicas e do desarranjo político” são as denúncias contra o presidente, que desde 17 de maio, segundo a pesquisa, “ganharam ampla cobertura da imprensa e a atenção da opinião pública”.

Para entrevistados, gravação é prova de envolvimento do presidente – De acordo com o resultado das pesquisas, as principais citações espontâneas dos entrevistados sobre a gravação da JBS foram que o presidente está envolvido em corrupção; de um empresário da JBS que comprou todo mundo; que a Polícia Federal tem provas mas que não prendeu ninguém, e citações sobre pagamento de mesada para o ex-presidente da câmara não abrir o bico.

A impressão dos entrevistados sobre as denúncias, de acordo com os documentos das pesquisas, é de que “a gravação é prova de que o Presidente estaria encobrindo os crimes do empresário”. A pesquisa destaca ainda algumas citações dos entrevistados:

“O impressionante não é o teor da conversa ou a circunstância, mas a operação em si. O cara sair rindo, sem nenhuma punição. Não vejo diferença em nenhum desses corruptos. Não entendo como a Justiça faz um acordo dessa natureza. Essa delação é realmente premiada.” (50 a 65, Classes AB)

“Só o fato de o áudio ser uma prova. As investigações em cima do áudio foram muito fortes. O pessoal foi fundo nessas investigações, que no fim não deram em nada.” (18 a 24, Classe C)

“Se o Presidente não tivesse nada a ver com a história, no momento ele pararia tudo e mandaria prender o cara na hora. Ele está querendo me corromper.” (50 a 65, Classe C)

Pronunciamento causou reações negativas em “todos os entrevistados” – nas pesquisas qualitativa foi reproduzido para os pesquisados o pronunciamento do presidente em resposta às divulgações na imprensa sobre a gravação da JBS.

De acordo com o documento, durante o pronunciamento, “alguns participantes balançavam negativamente a cabeça como que discordando da fala”.

A pesquisa apontou unanimidade entre os entrevistados de que o pronunciamento do presidente estava “distante da realidade vivenciada pelos participantes”. Se seguir, recortes de algumas respostas destacadas na pesquisa:

“Blasfêmia. O cara diz que eles quebraram o Brasil. Ele não fez nada, é inocente?” (50 a 65, Classes AB)

“Ele tirou o foco dele e começou a falar do outro lá. Em nenhum momento ele se preocupou em se defender, ele se preocupou em acusar.” (30 a 45, Classe C)

“É uma palhaçada. Um áudio daquele não tem como ser montagem. É uma sacanagem eles tentarem esconder uma coisa que está na cara de todos. Acho que tão cedo não melhora.” (18 a 24, Classe C)

“Ele fala que o Brasil venceu a maior crise econômica. Ele quis dizer que estamos lá em cima ainda, mas não tem nada a ver o que está passando.” (18 a 24, Classes AB)

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