Sindicato dos Jornalistas do Paraná entrevistou equipe do Livre.jor

E não é que em fevereiro a maré de boas notícias para o Livre.jor só cresceu? Perto do aniversário de um ano, fomos entrevistados pelo Régis Cardoso para o Extra Pauta – a famosa publicação do Sindicato dos Jornalistas do Paraná. Agora , além da versão impressa, o conteúdo está na internet.

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Livre.jor: “um coletivo de jornalistas focados em dados públicos” – Jornalistas paranaenses se organizaram e, após um ano de existência, o Livre.jor traz matérias precisas, tendo como principais fontes documentos oficiais

“A ideia surgiu da vontade de fazer uma cobertura política estadual com base mais em dados públicos que declarações ou opiniões. Hoje já temos mais de 1.500 pessoas acompanhando esse trabalho”, explicam inicialmente José Lázaro (31), jornalista formado na Universidade Federal do Paraná, mestre em Sociologia pela UFPR; e oão Guilherme Frey, 26 anos, graduado em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná, especialista em Direito à Cidade e Gestão Urbana pela Universidade Positivo – os cridores do Livre.jor.

Durante a premiação do Sangue Bom 2014 (em dezembro), promovido pelo Sindijor, o Livre.jor recebeu sua primeira premiação. Foi vencedor na categoria Inovação em Comunicação e Redes Sociais. Segundo Lázaro, esse foi “nosso primeiro prêmio”. E por saber da importância das inovações na área da comunicação, das produções alternativas feitas pelos trabalhadores jornalistas, o Sindijor conversou com os jornalistas José Lázaro e João Guilherme.

Extra Pauta: Qual é o principal objetivo do trabalho de vocês?
José Lázaro e João Guilherme: Complementar o noticiário tradicional com informações que, apesar de oficiais, e, portanto, já de domínio público, acabaram fora das manchetes. É um objetivo simples, mas que a longo prazo contribui para enfraquecer essa resistência que as pessoas em geral têm de mexer nos sites dos governos, ou em documentos oficiais. “É chato”, “eu não entendo”, “é um monte de número”, “eles falam outra língua” são expressões típicas dessa resistência. Ao mostrarmos diariamente que os documentos não mordem, acreditamos que o Livre.jor ajude a aumentar a vigilância dos atos públicos. Temos também o objetivo de contribuir (com o tamanho de nossas pernas) com a consolidação da Lei de Acesso à Informação. É claro que a aplicação da lei enfrenta certa resistência ou até desconhecimento do setor público, e nós acreditamos que usá-la, testá-la e até tencionar seus limites é uma forma de deixá-la mais forte.

EP: Poderia nos dar alguns exemplos de atuação do Livre.jor?
JLe JG: Praticamos jornalismo utilizando dados oficiais de qualquer natureza, dos diários aos bancos de dados disponibilizados por todas as esferas de governo. Agora no dia 12 de fevereiro completamos um ano de existência, com mais de 400 postagens – somos somente uma página no Facebook – em que expomos documentos que passaram despercebidos da imprensa tradicional, ou análises sobre dados públicos pouco conhecidos.

EP: E o que os diferencia de outras mídias?
JLe JG: Somos focados em assuntos relacionados a dados públicos – essa é uma restrição que define aquilo que fazemos. Ao mesmo tempo em que nos dá bastante liberdade para buscar cada vez fontes oficiais diferentes.

EP: De onde surgiu a ideia de focar o jornalismo principalmente na conferência de dados e documentos oficiais como fonte?
JLe JG: Depois que a imprensa estadual denunciou o esquema dos diários secretos da Assembleia Legislativa do Paraná, pensamos que a cobertura dos Poderes Públicos mudaria. Se você procurar sistematicamente uma informação em determinada fonte oficial, quando ela parar de ser fornecida já há espaço para uma reclamação. Só é possível haver diários secretos se ninguém está de olho aí.

Só que acompanhando o noticiário percebemos que a denúncia não motivou o conjunto dos jornalistas a observarem esse tipo de dado como matéria-prima para o seu trabalho. Daí que assumimos essa “tarefa” de ler sistematicamente os diários oficiais relacionados ao Paraná e acompanhar as demais informações relacionadas ao Estado que sejam de domínio público – para suprir a lacuna e para provocar os colegas a fazerem o mesmo.

EP: O que é necessário, tecnologicamente falando, para trabalhar com jornalismo de dados?
JLe JG: Na área onde o Livre.jor atua, que é a cobertura da gestão pública, é fundamental sabermos compreender e manejar os dados públicos. Essa tarefa ficou muito mais complicada, mas também divertida, com a Lei de Acesso à Informação. Hoje em dia, cada órgão público é obrigado a disponibilizar uma quantidade enorme de informação. Saber quais informações são estas, e como transformá-las em notícia, é uma habilidade que torna mais autônomo e ágil o repórter de política.

Para processar estes dados que buscamos, usamos o Excel. Para isso, às vezes temos que recorrer a programas que transformam tabelas de documentos fechados para formatos que possamos manejar. De modo geral, usamos tecnologias mais rústicas, ainda apanhamos bastante para tratar grandes quantidades de dados.

EP: A plataforma utilizada pelo Livre.jor é exclusivamente na rede social. Por quê? Pensam em criar um site ou ter um escritório ‘oficial’?
JLe JG: Já estamos trabalhando em um site próprio para o projeto, mas que não substituirá a publicação em redes sociais. Pelo contrário, funcionará como um arquivo vivo do conteúdo publicado no Facebook, por exemplo, permitindo que as pessoas utilizem os posts como um grande banco de dados. Também vai facilitar a disponibilização de determinados levantamentos, cujas planilhas de dados abertos não podíamos compartilhar livremente. O site permitirá também que apliquemos algumas ferramentas do jornalismo que o Facebook não permite, como, por exemplo, a hierarquização das notícias. Há um ano, quando começamos, a ideia era só disponibilizar algum conteúdo na internet. Não somos nem pretendemos vir a ser mais um blog de política – portanto a ideia de uma página em uma rede social parecia suficientemente boa.

EP: Qual sua opinião sobre os benefícios que a tecnologia trouxe para o jornalismo?
JLe JG: Todos os dados que publicamos, nós retiramos de bancos de dados disponíveis na internet, ou os requeremos via sistemas de informação virtuais. Para processar estas informações usamos alguns softwares, e para publicá-las o Facebook. O Livre.jor é um nativo digital, que só existe pelas facilidades permitidas pela tecnologia.

EP: Para finalizar, qual sua avaliação em relação a cobertura midiática atual? Acredita que a utilização do jornalismo de dados é satisfatória por parte da imprensa hegemônica?
JLe JG: Os dados sempre estiveram na base do jornalismo, o que ocorre hoje em dia é uma profusão de bancos de dados abertos ao público e uma facilidade muito maior em manejar estes dados. A grande imprensa, na medida em que o jornalismo de dados vai se moldando, é quem tem capacidade de financiar iniciativas e experimentar modos de fazê-lo. Alguns jornais têm optado por criar editorias específicas de dados, mas esta forma de fazer jornalismo tem extrapolado estas equipes e influenciado o trabalho de outras seções. Esportes e segurança pública, por exemplo, são campos que tem usado dados para fazer matérias interessantíssimas, como a série “Crime sem castigo”, da Gazeta do Povo.

Texto original em: http://sindijorpr.org.br/noticias/2/noticias/5788/jornalismo-de-dados-livre-jor-%E2%80%9Cum-coletivo-de-jornalistas-focados-em-dados-publicos%E2%80%9D

Autor: Regis Luís Cardoso
Fonte: SindijorPR

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