“Transparência não é só para falar do preço do cafezinho”

Livre.jor – Como a transparência interfere no ofício dos jornalistas?

João Guilherme Frey – Somos um dos maiores beneficiados desta lei. Temos a obrigação de ofício de usá-la, para não corrermos o risco de que ela atrofie. O embate deve ser nosso, nós é que temos a obrigação de tirar o pó dos documentos públicos, e botá-los ao sol, sob os olhos da sociedade.  A gente não deve se contentar em usar a transparência para falar do preço do cafezinho. É claro que o inusitado, o palpável, sempre rendem boas pautas; mas nós, os jornalistas, temos uma ferramenta fenomenal pra acompanhar a execução das políticas públicas. É nossa chance de fugir das assessorias e de diminuir nossa dependência de especialistas. É claro que não vamos sair dizendo o que achamos das coisas, mas podemos pautar os especialistas, e não esperar que algum estudo nos paute.

LJOR – E como o poder público reage a isto?

JGF – Nós temos que superar um certo melindre que existe na requisição de informações. O poder público precisa se habituar a prestar contas de seu trabalho. Não é bisbilhotice, não é fuxico, é uma relação republicana séria e madura, que supera, em qualidade e confiabilidade de informação, o declaracionismo seletivo que permeia as instituições públicas.

LJOR – E pra fora do jornalismo político, como usar a transparência?

JGF – A Lei da Transparência nos permite exercer um jornalismo político muito mais qualificado. Diria que não é nem jornalismo político, mas um jornalismo de gestão pública, de políticas públicas; desvinculado do partidarismo. E isso pode ser feito nas outras editorias. O repórter de cultura, por exemplo, só tem a ganhar se souber absorver os dados que estão à disposição para acompanhar os mecenatos, o financiamento dos grupos musicais públicos e tantos outros assuntos culturais. O mesmo acontece com o repórter de economia, que pode acompanhar todas as mudanças de ICMS e empresas beneficiadas com programas de fomento, por exemplo.

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