Somente o dado aterrador já daria a Guibsom Douglas Romão da Silva e Sabrina Victorya Jacob Madeira, estudantes de jornalismo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), o troféu na categoria universitária do Prêmio Mosca 2025. Cruzando informações da Redes da Maré, organização social que atua no Complexo, os dois contabilizaram 183 dias de aula perdidos, em nove anos, em consequência de operações policiais naquelas comunidades. Equivale a dizer que esses estudantes perderam um mês letivo por ano, em média, comparando-os a colégios onde não há tiroteios.

No documentário “O Medo Faz a Chamada”, orientado por Fernanda da Escóssia, professora da UERJ, com mentoria de Angelita Nunes pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Gibson e Sabrina exploram a dimensão humana desses dados em entrevistas e histórias de medo e morte relacionadas às incursões policiais nas comunidades cariocas. Nem toda denúncia é jornalismo-mosca, mas toda acusação jornalística estridente, que seja embasada em dados, faz juz ao nosso prêmio.

É por isso que fizemos vista grossa para o uso de IA, na inscrição, para responder como a reportagem se enquadra nos parâmetros do jornalismo-mosca. “O ChatGPT disse: ‘Quando o Medo Faz Chamada’ é Jornalismo-Mosca porque se propõe a enxergar o que a grande imprensa costuma ignorar: o impacto das operações policiais na educação dos estudantes do Complexo da Maré. O documentário dá voz a alunos, professores e moradores que convivem com a rotina de escolas fechadas, aulas interrompidas e o medo como parte do cotidiano, revelando como o Estado, ao invés de garantir direitos, frequentemente os viola”.

“Produzido de forma independente por estudantes de jornalismo da UERJ, o trabalho une dados, relatos e imagens reais para construir uma narrativa sensível e crítica. É jornalismo que incomoda, pois confronta desigualdades e mostra que o medo também é uma ferramenta de exclusão. Por isso, é Jornalismo-Mosca: porque pousa onde poucos olham, escuta quem raramente é ouvido e insiste em revelar o que preferem manter invisível”. Ficamos felizes pela IA acertar na mosca.

Se a COP30 pesou na vitória do Diários do Clima no Troféu Rastilho neste ano, não há como ignorar o impacto na sociedade brasileira da operação policial que deixou 122 mortos, em outubro, nos Complexos da Penha e do Alemão. Se os estudantes da Maré são afetados, todos aqueles que estudam em áreas de conflito também o são. Além da apuração fundamentada em dados, e do documentário bem produzido, a realidade exige que tratemos disso com seriedade. Isto fez o trabalho brilhar, entre as 62 inscrições que tivemos, neste ano, na categoria universitária do Prêmio Mosca.

CONFIRA OS PREMIADOS NA CATEGORIA UNIVERSITÁRIA

1º LUGAR – Quando o medo faz a chamada: impacto das operações policiais no direito à educação. Feita por Guibsom Douglas Romão da Silva e Sabrina Victorya Jacob Madeira, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), para o Rampas UERJ.
DA COMISSÃO JULGADORA: Muitos trabalhos inscritos por estudantes universitários de Jornalismo no Prêmio Mosca 2025 repisam aqueles assuntos clássicos dos bancos escolares: filas no atendimento do SUS, a vulnerabilidade social das trabalhadoras sexuais, a desgraça que é a desigualdade social, o sofrimento das famílias atípicas. Daí, quando uma reportagem consegue oxigenar a forma como enxergamos um problema social, não temos como desviar o olhar dela. Ela se faz urgente, mais urgente que as outras.
DE QUEM PRODUZIU A REPORTAGEM: “A nossa grande fonte de dados foi a Redes da Maré, uma instituição sediada na própria Maré que reúne os dados de violência do território. Ao encontrarmos o número de 183 dias sem aula, de 2016 até 2024, por conta de operações policiais, fomos em busca de outros dados que escancaram essa defasagem na vida estudantil do alunos mareenses, como o IDEB das escolas da região em comparação com escolas de outras localidades. Todos os dados envolvidos são sustentados por depoimentos de quem faz parte desses números”. 

2º LUGAR – Despreparo e nenhum receio de atirar: PMs mataram 40 pessoas em surtos de saúde mental entre 2024 e 2025. Feita por Lucas Polidori Azevedo, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grando do Sul (PUC-RS), publicada no jornal Sul21
DA BANCA JULGADORA: Igual ao primeiro lugar, a reportagem do Lucas Azeredo sai do lugar comum ao escancarar o sério problema do treinamento das forças policiais no Brasil. Pra isso, ele teve que construir o próprio banco de dados, que é o pesadelo do jornalista de dados, porque você se torna o único responsável pelas afirmações. Quem o ajudou? Colegas de profissão, do país todo, que tiveram a sensibilidade de incluir nas suas reportagens a condição das pessoas mortas pelas polícias. Ele coletou essas notícias e as sistematizou.
DE QUEM PRODUZIU A REPORTAGEM: “Aquele zumbido no pavilhão auditivo das autoridades é jornalismo-mosca. Acredito que esta frase, no início do manifesto, compreende o que tentamos realizar com esta matéria. A Brigada Militar está, há muito tempo, acomodada em seu lugar de poder. Ela é intocável nos veículos tradicionais. E esta reportagem está aí para incomodar. No RS, temos uma expressão chamada ‘Mutuca tira boi do mato’. A mutuca, que é um tipo de mosca, somos nós, que incomodamos a Brigada Militar, tiramos-a da zona de conforto. Se a Brigada, ‘de repente’, inserir no seu programa de treinamento algo ligado ao atendimento de pessoas em surto psiquiátrico, pode ter certeza que foi por conta do nosso trabalho”.

3º LUGAR – Processos Administrativos Disciplinares são usados para perseguir professores catarinenses. Feita por Camila Soares Borges, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), para o Cotidiano UFSC
DA BANCA JULGADORA: Em vez de só divulgar o relatório sobre abertura de PADs contra professores, a repórter foi atrás do resultado dessas investigações disciplinares e descobriu que um terço já havia sido arquivado. Todos os anos, recebemos diversas reportagens ocupadas de difundir dados apurados por terceiros – o que é parte da profissão, lógico. Mas é importante dar um passo a mais, quando isso é possível. Aqui, Camila viu essa oportunidade e, com coragem, entrou num assunto difícil, ainda mais em Santa Catarina. A exploração política dos educadores é algo para estar no radar de todo o Brasil ano que vem.
DE QUEM PRODUZIU A REPORTAGEM: “Quando resolvi fazer este trabalho senti a falta de dados que quantificassem o problema. Por isso, a reportagem foi produzida a partir de dados coletados em edições dos últimos quatro anos do Diário Oficial de Santa Catarina; por meio da consulta aos discursos feitos na tribuna por parlamentares catarinenses e da análise de leis aprovadas a nível estadual e nos 295 municípios de Santa Catarina. (…) É importante que a denúncia seja feita, uma vez que os dados coletados mostram que em anos eleitorais essas violências são intensificadas. Tendo em vista 2026, medidas precisam ser tomadas para que professores sejam protegidos”.

MENÇÃO HONROSA – Transgredindo preconceitos: a luta das mulheres trans nas Forças Armadas. Feita por Mariana Azevedo e Rafaela Ancel, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), para o Foca Repórter.
DA BANCA JULGADORA: O Prêmio Mosca 2025, na categoria Universitária, acabou sendo um reconhecimento das reportagens que trazem novos olhares para problemas sociais. Parece que, infelizmente, a sociedade brasileira naturalizou a vulnerabilidade social das pessoas trans. Mas isto não está correto e é papel dos jornalistas encontrar formas de desestabilizar essa visão acomodada, que vê no sofrimento alheio algo banal. A reportagem utilizou Lei de Acesso à Informação para gritar que as Forças Armadas não sabe quantas pessoas trans têm. Ou pior: oficialmente, nenhuma. Mas os casos concretos estão ali para questionar a estatística.
DE QUEM PRODUZIU A REPORTAGEM: “Com a publicação da matéria, a advogada, que representa o caso é ativista pelos direitos trans militares e uma mulher trans, compartilhou em suas redes e pôde responder a outras entrevistas, com matérias veiculadas no jornal O Globo, por exemplo. (…) Entender o panorama da questão de gênero [nas Forças Armadas] foi uma oportunidade de trazer o recorte das pessoas trans dentro de um ambiente estruturalmente binário e sem medidas na própria legislação em proteção dos direitos trans”.

MENÇÃO HONROSA – Atafona, entre o mar, fé e a memória. Feita por Júlia Mendes Louzada de Souza, Thiago Freitas, Daniele Bragança e Marcio Isensee e Sá, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), para ((oeco)).
DA BANCA JULGADORA: Menos presentes nas edições anteriores, neste ano houve mais publicações de estudantes em jornais consolidados, o que mostra uma interessante ampliação dos programas de mentoria já nos cursos de graduação. Nesta apuração para o ((eco)), temos dados sobre erosão costeira, um bom uso do gráfico visual com imagens de satélite e uma abordagem humanizada do problema. Sentimos falta, diferente dos demais textos, de um lide acusativamente mosca.
DE QUEM PRODUZIU A REPORTAGEM: “Cruzei os relatos com dados conhecidos. Por exemplo, projeções de elevação do nível do mar (citações de relatórios da ONU) e estudos regionais de erosão costeira para aquela faixa do litoral do Rio de Janeiro. (…) Parti de um panorama já conhecido da erosão costeira em Atafona, a partir de relatórios prévios, estudos científicos regionais e literatura sobre erosão marinha. (…) Utilizamos narrativas de moradores para articular as dimensões ambientais (erosão, avanço do mar), sociais (moradia, deslocamentos) e simbólicas (fé, memória)“. 

MENÇÃO HONROSA – Bancada negra ainda é minoria na Câmara Municipal de Curitiba. Feita por Rodrigo Matana Sobrinho e Giovani Sella, para a Universidade Federal do Paraná (UFPR), para o Jornal Comunicação UFPR.
DA BANCA JULGADORA: Bairros mais pobres de Curitiba votam em negros, ricos escolhem brancos. Era essa a manchete que a gente queria ter visto na reportagem, que trouxe um cruzamento ainda pouco explorado pela imprensa profissional, de voto territorializado por raça, e que revela o abismo entre classes sociais e a importância das políticas afirmativas. Por essa sacada, a reportagem merece uma menção honrosa do Prêmio Mosca (além da técnica envolvida). De fato, 2025 foi o ano de premiar quem saiu do script.
DE QUEM PRODUZIU A REPORTAGEM: “A partir da reportagem, é possível que a sociedade civil compreenda e possa afirmar, com base em dados concretos, que o racismo na cidade de Curitiba está ligada a um fator socioeconômico e geográfico. Além disso, o infográfico foi premiado no Expocom Sul de 2025 na categoria de infográfico. Essa premiação possibilitou a apresentação dos métodos de apuração e produção para além da cidade de Curitiba, assim inspirando mais jornalistas-moscas brasil a fora a trabalhar com dados eleitorais

MENÇÃO HONROSA: Um ano após enchente, arquivistas e museólogos seguem trabalhando para salvar acervos. Feita por Clarice Sena Panizzon, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS, para o Humanista.
DA BANCA JULGADORA: O Prêmio Mosca 2025 mostrou que as futuras gerações de jornalistas vão bem, apesar dos ataques que a profissão tem sofrido. Um sinal disso é a quantidade de pautas submetidas que extrapolam o óbvio. As enchentes no RS, em 2024, buscando pela memória, parecem ser coisa muito no passado, nem se falou delas direito no ano da COP30, mas foi anteontem. A abordagem encontrada pela estudante é uma “denúncia construtiva”, mostrando como a cobertura de desastres pode sair do mero factual.
DE QUEM PRODUZIU A REPORTAGEM: “Essa reportagem é jornalismo-mosca porque dedica um olhar sensível e singular para um problema inusitado, escondido e pouco compreendido pela sociedade. O verdadeiro impacto que as enchentes tiveram sobre os arquivos é algo que ainda não se sabe totalmente, por isso, a matéria também se insere como um registro histórico desses fatos para que no futuro haja fiscalização sobre as informações que podem ter sido perdidas. Além disso, a reportagem também visibiliza o trabalho desses profissionais que atuam na recuperação dos acervos, uma atividade praticamente escondida do público”.

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