Quatro meses após a publicação da reportagem “União deixou de arrecadar R$ 11 bi para pagar bônus a advogados públicos”, dos repórteres Amanda Rossi e Mateus Coutinho, para o UOL, a Advocacia Geral da União (AGU) lançou, em tom festivo, um painel para “para ampliar a transparência ativa das informações sobre os honorários sucumbenciais recebidos pelos advogados públicos federais que integram as carreiras jurídicas da instituição”. É “passar recibo” que chama, né, em bom português. Pela combinação de coragem, qualidade e repercussão, é da dupla o Prêmio Mosca 2025!

Não é de hoje que a AGU ocupa um lugar central na política brasileira, ainda que na maior parte do tempo opere longe da mídia. Verdadeiro “forninho de ministros” do Supremo Tribunal Federal (STF), é de lá que saíram, para a Suprema Corte, Gilmar Mendes, Dias Toffoli e André Mendonça. Mais recentemente, estamos vendo os esforços do governo Lula 3 para que Jorge Messias também migre da AGU para o STF.

Nenhum dos ex-AGU no Supremo dirigia o órgão quando entrou em vigor a lei federal 13.327/2016, em julho daquele ano, que liberou os pagamentos – bem durante o afastamento temporário da ex-presidenta Dilma, no processo que culminaria no impeachment. A reportagem do UOL mostra que, antes desta norma, 1% dos advogados públicos da União ganhava honorários. Depois dela, 96%, chegando à estimativa de R$ 11 bilhões em sete anos, de 2017 a 2024. Foram dois meses checando e cruzando dados de planilhas de pagamentos da AGU para chegar a esse valor.

O “exposed” dos honorários da AGU tem o mérito de ter aberto essa Caixa de Pandora. Depois do UOL, um relatório da organização Transparência Brasil apontou que parte desses pagamentos (R$ 4,5 bihões de janeiro de 2020 a agosto de 2025) superaram o teto constitucional. Isso fez o Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) exigir um posicionamento do TCU sobre a legalidade dos pagamentos. Não é todo dia que dois jornalistas dobram a AGU e põe em movimento uma bola de neve que apoia o movimento de controle social no Brasil.

No ano de 2025, a categoria Profissional do Prêmio Livre.jor de Jornalismo-Mosca recebeu 139 inscrições, das quais foram selecionados 58 finalistas. É incômoda a posição em que nos metemos, quando decidimos criar esse concurso, porque atribuir valor ao trabalho duro dos colegas sempre vai levar a injustiças. A principal deste ano foi que deixamos todas as apurações sobre emendas parlamentares de fora do pódio, tanto as nacionais, quanto as regionais. Foram muitas.

Também tivemos muitas denúncias associadas à mineração, às big techs, uso indevido de verba pública em shows e questões municipais. Selecionamos representantes desses temas utilizando as balizas do CO-QUA-RÉ, então nem sempre o lance mais ousado foi premiado, ou a investigação mais profunda, porque a ideia é que essas coisas ocorram juntas e tenham efeitos práticos na realidade. Quando a gente pede, na ficha de inscrição, que os competidores indiquem a repercussão, não se trata de likes no TikTok, de quem reproduziu o furo. Isso importa, mas importa menos.

CONFIRA OS VENCEDORES DO PRÊMIO MOSCA 2025

1º Lugar – União deixou de arrecadar R$ 11 bi para pagar bônus a advogados públicos, de Amanda Rossi e Mateus Coutinho, para o UOL.
DA BANCA JULGADORA: Apurações sobre o sistema de Justiça nunca são fáceis, porque os dados costumam ser propositalmente opacos, ainda mais quando as questões envolvem a elite remuneratória do funcionalismo. O corporativismo segue sendo um dos empecilhos à imagem do serviço público, então não é incomum que associações profissionais reajam processando os jornalistas. A AGU não costuma ser visada, mas, vejam só, após o UOL abrir a Caixa de Pandora, ficou mais fácil para a Transparência Brasil falar desse assunto, legitimando a ação dos mecanismos de controle, como o Ministério Público Federal e o TCU.
DA EQUIPE DA REPORTAGEM: “Foram coletados os dados de pagamentos de membros da AGU a partir de centenas de planilhas de dados brutos do Portal da Transparência, feito um filtro e um refinamento da pesquisa, além de contato junto aos próprios integrantes do órgão para eliminar erros de informação (alguns dos pagamentos mais altos a servidores apontados pelo Portal da Transparência estavam errados). (…) O levantamento embasou uma ação judicial do MPF, órgão que estava apurando a gestão do CCHA, mas que não havia conseguido levantar os dados de forma tão minuciosa como a reportagem”.

2º LUGAR – Justiça expõe nomes e endereços de vítimas de estupro e violência doméstica, de Judite Cypreste, para o G1.
DA BANCA JULGADORA: A vencedora do ano passado retorna ao pódio do Prêmio Mosca, novamente destrinchando os limites de um dos principais sistemas eletrônicos do sistema de Justiça do Brasil, que é o Banco Nacional de Mandados de Prisão (BNMP). A reportagem de Judite Cypreste fez com que documentos oficiais disponíveis no BNMP tivessem que ser reescritos por exporem dados que deveriam ser sigilosos. Como? Ela utilizou uma API secreta do sistema, que dava acesso externo ao teor de processos .
DA EQUIPE DA REPORTAGEM: “A reportagem provocou reação institucional: tribunais informaram que abririam apurações internas, e o CNJ afirmou que os “erros” poderiam ser levados à Corregedoria Nacional. Além disso, diversos mandados que antes identificavam essas vítimas saíram do ar para correção. A cobertura gerou debate público sobre transparência versus proteção de dados, evidenciando inconsistências: o mesmo sistema que nega o compartilhamento integral da base alegando LGPD, expunha crianças e mulheres vítimas de crimes sexuais e de violência doméstica”.

3º LUGAR – Série de reportagens sobre “pilhas” de rejeitos de mineração em MG, José Vítor Camilo, para O Tempo.
DA BANCA JULGADORA: Quando a gente viu as inscrições do repórter José Vítor Camilo, veio aquela pergunta: “como ninguém falou disso antes, ainda mais Minas Gerais?”. Um desmoronamento sem vítimas, no interior de MG, levou a reportagem atrás do que seria aquela pilha de rejeitos de mineração. Utilizando a Lei de Acesso à Informação, descobriram 732 pilhas, que parecem ter vindo para substituir as barragens a montante, de Mariana e Brumadinho. Vale a pena navegar pelo jornal, para encontrar as histórias de quem vive perto dessas estruturas, como o casal de idosos e a comunidade remanescente de quilombola ameaçados pela falta de fiscalização da mineração em MG. As notícias dele têm forçado autoridades locais a
lidarem com o problema, no estado que mais registrou desastres do tipo.
DA EQUIPE DA REPORTAGEM: “Após o acidente com uma pilha de rejeitos em Conceição do Pará, passamos a buscar informações sobre a estrutura e constatamos que, diferentemente das barragens, não existia um banco público de informações sobre estas estruturas. Após semanas questionando a ANM, decidi que seria necessário acionar o órgão por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI). A resposta nos surpreendeu, uma vez que, sem legislação específica e pouca fiscalização, Minas era “lar” de 732 dessas montanhas feitas com o lixo da mineração. O levantamento e as entrevistas feitas na cidade mineira onde o acidente desalojou mais de 200 pessoas no povoado de Casquilho de Cima, renderam uma série com quatro matérias, batizada de Montanhas de Incerteza”.

MENÇÃO HONROSA – Podcast No Alvo, Temporada Império Malafaia, de Igor Mello, Juliana dal Piva, Cristiano Botafogo, Gabriela Varella, Stela Nesrine, Amon Medrado, Elenilce Bottari, Paula Villar, Eder Ribeiro, Fred Lopes e João Brizzi, para o ICL.
DA BANCA JULGADORA: Dois dos jornalistas mais condecorados do Prêmio Mosca, e uma equipe de luxo, se reúnem para uma radiografia política do pastor Silas Malafaia. Expor a trajetória de enriquecimento e expansão dos negócios dele no mundo gospel exigiu muita pesquisa e bastante coragem, porque era evidente que ele reagiria em âmbito judicial. Pela coragem e qualidade, o trabalho leva uma menção honrosa neste ano.
DA EQUIPE DA REPORTAGEM: “Para nós, jornalismo-mosca é, antes de tudo, dedicar tempo e atenção a uma análise aprofundada sobre fatos e personagens de poder, revelando informações exclusivas ou jogando nova luz sobre episódios que ficaram restritos ao factual do dia. E, no processo, incomodar os interesses escusos dos poderosos. Esse podcast é um exercício desses conceitos. A apuração durou mais de 1 ano e se debruçou sobre dezenas de milhares de páginas de documentos para trazer à tona episódios controversos que Silas Malafaia fez questão de apagar de sua biografia”.

MENÇÃO HONROSA –  Vereadores pelo país tentam barrar o acesso ao aborto legal, de Jane Nascimento Fernandes,Maria Paula Monteiro, Maria Vitória Ramos, Taís Seibt, Aline Gatto Boueri e Joana Suarez, para AzMina.
DA BANCA JULGADORA: Pode soar repetitivo, porque dizemos isso todos os anos, mas o trabalho feito por AzMina, Gênero e Número e outros veículos focados em denunciar ataques aos direitos humanos se destaca por ser um farol no meio do jornalismo factual. Elas estão anunciando o colapso do sistema de garantias há anos. Esta reportagem é um excelente exemplo disto, por isso a selecionamos como uma menção honrosa.
DA EQUIPE DA REPORTAGEM: “A reportagem coletou todos os projetos de lei das capitais do país que mencionassem e tratassem diretamente sobre ‘aborto’ ou ‘nascituro’, entre os anos de 2017 e 2024. A coleta aconteceu em janeiro de 2025, por meio dos sites oficiais das Câmaras Municipais e via Lei de Acesso à Informação. Todos os projetos foram tabulados para identificar a cidade, o autor da matéria, ano e tramitação. Além disso, foram classificados também se são projetos que buscam garantir ou restringir o acesso à interrupção legal da gestação, seja com a promoção de uma alteração legal ou em busca de movimentar o debate público. (…) A reportagem evidencia importantes aspectos relacionados à ação dos vereadores, como o aumento da insegurança jurídica para profissionais de saúde, a ampliação do estigma e da violência institucional, o silenciamento de propostas progressistas e a desigualdade no acesso aos direitos reprodutivos”.

MENÇÃO HONROSA –  As vítimas da política da bala em SP, de Artur Rodrigues, Renan Porto, Fabio Leite, Rodrigo Freitas, Lilian Tahan, Otto Valle, Márcia Delgado, Olivia Meireles, Érica Montenegro, Juliana Garcês, Gui Primola, Lygia Lyra, Gabriel Lucas, Michael Melo, Italo Ridney, Caio Sales e Saulo Marques, para o Metrópoles.
DA BANCA JULGADORA: Quantas vezes o jornalismo vai ter que esfregar o óbvio na cara da sociedade para que alguma autoridade admita que tem algo errado na segurança pública? Em 2025, mais um exemplo formidável de apuração baseada em dados para denunciar abusos de autoridade.
DA EQUIPE DA REPORTAGEM: “O esforço jornalístico envolveu a obtenção de todos os boletins de ocorrência e processos judiciais referentes a homicídios cometidos por policiais na cidade [de SP] em 2024. Foram analisados 227 casos, que levaram à morte de 246 pessoas. A equipe ainda teve acesso a laudos criminais e vídeos inéditos, que contrariam as versões oficiais. Tratou-se de um trabalho desenvolvido ao longo de nove meses, em que a equipe primeiro obteve cada um dos BOs por meio de fontes e rastreou os processos referentes aos casos. De quase 90 mil páginas, surgiu uma abordagem inovadora do assunto e dados chocantes: 85 pessoas estavam desarmadas e 47 foram baleadas pelas costas. A PM deu mais de 1.700 tiros nas ocorrências — 459 ao matar vítimas que não tinham arma de fogo”.

MENÇÃO HONROSA – ‘Cidade de data centers’ no RS pode gastar mais energia que 40 milhões de pessoas’, de Naira Hofmeister, Isabel Harari, Paula Bianchi e Carlos Juliano Barros, para o Repórter Brasil.
DA BANCA JULGADORA: Reportagens sobre contratos públicos suspeitos sempre são inscritas no Prêmio Mosca e, neste ano, tivemos outro tanto sobre o lobby das big techs no Congresso, em governos estaduais e prefeituras. Escolhemos esta, do Repórter Brasil, por ela demonstrar o impacto desse tráfico de influência na vida real das pessoas, além dos danos que essa nova fase da tecnologia causa, onde o impacto ambiental vai para a periferia global e o lucro pelo processamento dos dados fica nas sedes das multinacionais.
DA EQUIPE DA REPORTAGEM: “A reportagem pode ser considerada um marco divisor, sobretudo no estado do Rio Grande do Sul. Antes da publicação, todas as menções ao empreendimento na imprensa eram laudatórias, destacando unicamente o volume do investimento a ser realizado. Após a publicação, muitos outros veículos de notícia passaram a abordar também a perspectiva das incertezas socioambientais. Nacionalmente, o tema ganhou muita propulsão depois da publicação desta reportagem. (…) [Houve] a inclusão do ramo “data centers” no regramento do licenciamento ambiental do Rio Grande do Sul [após a reportagem]”.

MENÇÃO HONROSA – Série de reportagens “Ruas de São Paulo à Venda”, de Priscila Mengue, para o Estadão.
DA BANCA JULGADORA: Jornalismo local com cara de denúncia nacional, porque é bastante improvável que a classe política não esteja repetindo esse modus operandi em outras grandes cidades brasileiras. O ditado diz que “o diabo mora nos detalhes” e é aí que a apuração de Priscila Mengue se destaca das demais, já que ela soube, com persistência, insistir no interesse público do tema e “fatiá-lo” em várias notícias, caso a caso, para mostrar como funciona esse balcão de áreas públicas na principal cidade do país.
DA EQUIPE DA REPORTAGEM: “A série de matérias revelou uma mobilização do mercado pela compra de ruas públicas em São Paulo, o que até então estava fora dos holofotes. Para tanto, utilizou amplamente de diversas bases de dados públicas para a coleta de informações: Diário Oficial, plataforma SEI, atas de reuniões oficiais, portal Geosampa (mapa digital da Prefeitura) e transmissões da Câmara Municipal. Se não fosse assim, o caso talvez não tivesse virado notícia em lugar algum e, mesmo que fosse, não teria o detalhamento que ganhou: valores, principais interessados e consequências”.

MENÇÃO HONROSA – Elevador quebrado no metrô Jardim São Paulo, de Kaique Dalapola, no Instagram.
DA BANCA JULGADORA: Nem só de jornalões e suas equipes fantásticas, com advogados para enfrentar poderosos, vive o jornalismo-mosca. Quem diria que um carrossel no Instagram faria a operadora do metrô de São Paulo acelerar o conserto do elevador que impediu, por meses, que Graciela Binaghi, 73, fosse à fisioterapia? Quando o Kaique mandou o print dela agradecendo a postagem, porque finalmente tinham consertado o elevador, ficou claro que vocês, além de nós, deveriam conhecer esse caso bem sucedido de jornalismo hiperlocal. Repercussão não é viralizar nas redes, é consertar um elevador no metrô de SP.
DA EQUIPE DE REPORTAGEM: “A repercussão na sociedade foi notável, com diversos comentários de pessoas relatando problemas de acessibilidade semelhantes em outras estações, criando uma verdadeira comunidade de denúncia. A reportagem serviu como uma plataforma para que a frustração individual de Dona Graciela se tornasse um problema de interesse público, pressionando o Metrô de SP a dar uma resposta mais satisfatória do que as oferecidas até então. Além disso, ao divulgar o abaixo-assinado, a matéria também funcionou como um catalisador para a ação cívica. Dois meses depois, o problema reportado foi solucionado em definitivo (após várias outras medidas paliativas adotadas após a reportagem)”.

Os vencedores serão contatados em janeiro para a emissão dos certificados.

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