Contratos citam a “segurança do Palácio Iguaçu” e “demandas da Divisão de Inteligência Governamental”, mas não detalham ameaça concreta, regras de operação nem controle sobre imagens.

A Casa Militar do Paraná contratou quase R$ 1 milhão em equipamentos ligados a drones e antidrones em abril. O pacote identificado nos diários oficiais soma R$ 959,5 mil e inclui 2 conjuntos de tecnologias para bloqueio de drones, 1 aeronave remotamente pilotada e 1 aeronave remotamente pilotada com câmera térmica. A justificativa mais explícita nos documentos públicos é proteger o Palácio Iguaçu, sede do governo estadual, e atender a “demandas” da Divisão de Inteligência Governamental da própria Casa Militar.

O contrato mais caro é o de R$ 741 mil com a Gohobby Future Technology Ltda., assinado em 8 de abril, para a compra de 2 “conjuntos de tecnologias para bloqueio de drones”, ao preço unitário de R$ 370,5 mil. O objeto é descrito como “Aquisição de Equipamento para Bloqueio de Drones, para garantir a segurança do Palácio Iguaçu e demais locais de responsabilidade da Casa Militar”.

Bloqueador de drones vai para a Inteligência Governamental

A frase “garantir a segurança do Palácio Iguaçu e demais locais de responsabilidade da Casa Militar” é a principal justificativa pública encontrada no contrato. O documento não informa, porém, se houve sobrevoos irregulares, tentativa de invasão, ameaça contra autoridades, avaliação técnica de risco ou ocorrência anterior que tenha motivado a compra.

A entrega dos equipamentos deve ocorrer na Divisão de Inteligência Governamental da Casa Militar, no Palácio Iguaçu, “sob solicitação formal da DIG/CM”, em até 90 dias depois da assinatura do contrato e do recebimento da nota de empenho. O contrato também diz que os equipamentos serão entregues na sede da divisão, mas não apresenta protocolo de acionamento, hipóteses de uso, limites territoriais ou rotina de controle externo.

A dotação usada é a de Gestão Administrativa – Casa Militar, com fonte 501, e o elemento de despesa é classificado como “Equipamentos e Sistema de Proteção e Vigilância Ambiental”. Apesar do valor e da sensibilidade do objeto, o contrato não detalha alcance, frequências bloqueadas, área de cobertura, restrições urbanas ou eventuais autorizações necessárias para uso de tecnologia de interferência contra drones.

Diário Oficial trouxe mais 2 drones no mesmo mês

Além dos bloqueadores, o Diário Oficial de 27 de abril publicou 2 despachos da Casa Militar para compra de drones com a mesma empresa. O primeiro autorizou a adesão à Ata de Registro de Preços 044/2024 – Senasp, para aquisição de 1 “Aeronave Remotamente Pilotada – aeronave teleguiada”, no valor de R$ 146,4 mil. A finalidade publicada foi o “atendimento das demandas da Divisão de Inteligência Governamental da Casa Militar”.

O segundo despacho autorizou a compra de 1 “Aeronave Remotamente Pilotada com Câmera Térmica/Versão Termal”, por R$ 72,1 mil, também para o “atendimento das demandas da Divisão de Inteligência Governamental da Casa Militar”. O texto cita adesão à Ata de Registro de Preços 002/2025, decorrente do Pregão Eletrônico SRP 15/2025, mas não explica quais operações justificam o uso de câmera térmica pela inteligência da Casa Militar.

Somadas, as 2 aeronaves custam R$ 218,5 mil. O bloqueio de drones, sozinho, custa mais de 3 vezes esse valor. A pauta, portanto, não é apenas a compra de drones pelo governo estadual, mas a montagem de uma estrutura combinada: equipamentos para operar drones e equipamentos para bloquear drones no entorno do Palácio Iguaçu e de outros locais sob responsabilidade da Casa Militar.

Justificativa é mais vaga que a de outros órgãos

A falta de detalhamento das justificativas chama atenção quando comparada a documentos de outros órgãos estaduais que também compraram tecnologias relacionadas a drones. No caso da Polícia Penal, por exemplo, o termo de referência para aquisição de 2 detectores de drones Gohobby Sentinel, por R$ 299,8 mil, apresenta diagnóstico mais concreto. O órgão afirma que o Paraná tem cerca de 41 mil presos, aproximadamente 120 estabelecimentos prisionais e 18 mil pessoas sob monitoração eletrônica.

A Polícia Penal também afirma que criminosos vêm usando drones para “monitorar estabelecimentos prisionais” e “transportar ilícitos (entorpecentes, armas, telefones celulares etc)” para dentro de penitenciárias. O documento menciona ainda “relatos recentes de criminosos utilizando drones para arremessar granadas de mão” e explosivos contra estruturas.

No mesmo termo, a Polícia Penal diz que começou a operar drones em 2023 e que constatou “diversas ocorrências de utilização de drones não colaborativos (hostis) transportando ilícitos”. A justificativa é associada a “aumentar a consciência situacional” e “coibir a utilização de drones hostis por criminosos”.

Na Casa Militar, o vocabulário é outro. Os documentos disponíveis falam em “segurança do Palácio Iguaçu”, “demais locais de responsabilidade da Casa Militar” e “demandas da Divisão de Inteligência Governamental”. Não há, nos atos analisados, exposição pública equivalente sobre risco, histórico de ocorrências, finalidade operacional, salvaguardas ou regras para coleta e uso de imagens.

Gohobby concentra contratos de drones no Estado

A Gohobby aparece em outros contratos estaduais relacionados a drones. No Portal da Transparência, em 2026, há registro da Casa Militar para “aquisição de conjuntos de tecnologias para bloqueio de drones” e contratos vigentes vinculados ao Departamento de Polícia Penal, ao Corpo de Bombeiros Militar e ao Departamento de Polícia Civil.

Na Polícia Civil, a empresa vendeu 9 drones modelo “2” e acessórios por R$ 719mil. No Corpo de Bombeiros, contrato semelhante previu 9 drones modelo “2” e acessórios por R$ 853 mil. Ambos decorrem do Pregão Eletrônico 1.327/2024, voltado à aquisição de aeronaves remotamente pilotadas e acessórios para unidades da área de segurança pública.

O conjunto indica uma política mais ampla de aquisição de tecnologias aéreas e antidrone pelo Estado. A diferença é que, em órgãos como Polícia Penal, Polícia Civil e Bombeiros, a finalidade operacional é mais intuitiva e, em alguns casos, mais documentada. 

O que falta o Governo do Paraná explicar

A compra de drones e antidrones pode ter fundamento de segurança institucional. O Palácio Iguaçu é sede do governo e recebe autoridades, servidores, visitantes, manifestações e eventos oficiais. O problema é que os documentos analisados não informam qual risco concreto motivou o pacote, quando os equipamentos poderão ser usados, quem autorizará as operações, como serão tratadas imagens e dados captados, nem quais controles existirão sobre a Divisão de Inteligência Governamental.

Também não há, no material disponível, explicação sobre o alcance da expressão “demais locais de responsabilidade da Casa Militar”. Sem essa delimitação, o contrato abre margem para uso dos bloqueadores e drones fora do Palácio Iguaçu, mas não informa quais espaços entram nessa categoria. A pergunta central, portanto, não é se o governo pode proteger a sede do Executivo. É como pretende fazer isso.

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