Votações pessoais, escolhas cruzadas e fragmentação de candidaturas fazem resultados para senador divergirem das disputas para presidente e governador

Nas sete eleições gerais realizadas entre 1998 e 2022, a disputa pelo Senado no Paraná raramente reproduziu, na mesma proporção, os resultados das corridas para presidente e governador. O descolamento assumiu formas diferentes: candidatos com votação muito superior à de seus próprios palanques, chapas derrotadas nos cargos executivos que conquistaram as vagas do Senado e campos políticos dominantes que se dividiram entre vários nomes.

Alvaro Dias superou os percentuais dos vencedores para presidente e governador em 1998 e alcançou 77% dos votos em 2014. Em 2010, Gleisi Hoffmann e Roberto Requião conquistaram as duas cadeiras em disputa, embora José Serra e Beto Richa tenham vencido as eleições presidenciais e estaduais no Paraná. Em 2022, Ratinho Junior foi reeleito com quase 70% dos votos, mas Sergio Moro precisou de apenas 33,5% para chegar ao Senado.

O fenômeno não significa que o eleitor paranaense tenha votado sempre em campos políticos opostos para os três cargos. Em algumas eleições, como 1998 e 2014, o descolamento apareceu principalmente na intensidade da votação. Em outras, houve separação efetiva entre os palanques ou fragmentação de um mesmo campo político entre diferentes candidaturas. Chegou a hora de lembrar as circunstâncias que fazem o voto do paranaense ao Senado “ter vida própria”.

A comparação entre os pleitos exige uma ressalva metodológica. Em 1998, 2006, 2014 e 2022, o Paraná elegeu um senador. Em 2002, 2010 e 2018, estavam em disputa duas vagas, e cada eleitor podia votar em até dois candidatos. Nesses três pleitos, os percentuais indicam a participação de cada candidatura na soma dos votos válidos para o cargo. .

1998: Alvaro supera os vencedores para presidente e governador

A primeira eleição da série foi também a primeira demonstração da força eleitoral própria de Alvaro Dias (PSDB). Ele conquistou 2.532.010 votos, equivalentes a 65,13% dos válidos. Nedson Micheleti (PT) ficou em segundo lugar, com 977.279 votos e 25,14%. A vantagem de Alvaro chegou a 1.554.731 votos, quase 40 pontos percentuais.

Seu desempenho proporcional foi superior ao dos dois vencedores dos cargos executivos. Fernando Henrique Cardoso (PSDB) recebeu cerca de 59,25% dos votos presidenciais válidos no Paraná, enquanto Jaime Lerner (PFL) foi reeleito governador com 52,21%.

Roberto Requião (PMDB), derrotado por Lerner, alcançou 45,91%, mas sua votação não se transferiu na mesma proporção para Nedson, candidato ao Senado de uma coligação que reunia PT, PMDB e PDT. Requião recebeu 808.836 votos a mais que Nedson.

Alvaro ficou quase 6 pontos acima de Fernando Henrique e cerca de 13 pontos acima de Lerner. O resultado inaugurou o primeiro padrão da série: uma candidatura ao Senado capaz de concentrar votos inclusive entre eleitores que fizeram outras escolhas para presidente e governador.

2002: Osmar lidera, PT leva uma vaga e PMDB fica em terceiro

Em 2002, duas cadeiras estavam em disputa e o quadro foi bem mais fragmentado. Osmar Dias (PDT) liderou com 2.776.368 votos, ou 30,06% dos votos válidos para o cargo. Flávio Arns (PT) ficou com a segunda vaga, ao receber 1.995.730 votos, equivalentes a 21,60%.

Paulo Pimentel (PMDB) apareceu em terceiro, com 11,82%, seguido de Edésio Passos (PT), com 10,38%, e Luciano Pizzatto (PFL), com 9,74%. Sete candidatos superaram 7% dos votos válidos para senador.

O resultado combinou partes de palanques diferentes. Osmar integrava a coligação de Alvaro Dias (PDT), que liderou o primeiro turno para governador com 31,40%. Flávio Arns beneficiou-se da força de Lula (PT), que obteve 50,13% dos votos presidenciais válidos no Paraná.

Já Paulo Pimentel, candidato do partido de Roberto Requião (PMDB), ficou em terceiro, embora Requião tenha avançado ao segundo turno e conquistado o governo. A vitória presidencial do PT ajudou o partido a eleger um senador, mas não impediu que Osmar Dias fosse o nome mais votado para o cargo.

2006: Senado repete polarização presidencial, mas não a estadual

A eleição de 2006 teve a maior polarização da série entre dois candidatos ao Senado. Alvaro Dias (PSDB) foi reeleito com 2.572.481 votos, ou 50,51%, enquanto Gleisi Hoffmann (PT) recebeu 2.299.088, equivalentes a 45,14%.

Juntos, Alvaro e Gleisi concentraram 95,65% dos votos válidos. A diferença entre os dois foi de 273.393 votos. Todas as demais candidaturas somadas ficaram com menos de 5%.

A disputa pelo Senado reproduziu, em boa medida, a polarização presidencial. Geraldo Alckmin (PSDB) venceu Lula (PT) no Paraná por 53,01% a 37,90%, enquanto Alvaro superou Gleisi por 50,51% a 45,14%.

A eleição estadual, porém, organizou-se sobre outro eixo. Roberto Requião (PMDB) liderou o primeiro turno para governador com 42,81%, diante dos 38,60% de Osmar Dias (PDT), e foi reeleito posteriormente por apenas 10.479 votos. Em um mesmo pleito, portanto, as três eleições majoritárias apresentaram configurações partidárias diferentes.

2010: chapa derrotada para o governo conquista as duas vagas

O caso mais completo de descolamento ocorreu em 2010. Beto Richa (PSDB) venceu a eleição para governador no primeiro turno, com 52,44%, superando Osmar Dias (PDT), que recebeu 45,63%.

José Serra (PSDB) também foi o presidenciável mais votado no Paraná, com 43,94%, diante dos 38,94% de Dilma Rousseff (PT). Apesar das vitórias tucanas nas duas disputas executivas dentro do estado, o PSDB não conquistou nenhuma das cadeiras do Senado.

Gleisi Hoffmann (PT) liderou a votação para senador, com 3.196.468 votos e 29,50%. Roberto Requião (PMDB) ficou com a segunda vaga, ao receber 2.691.557 votos, ou 24,84%. Os dois integravam a coligação que apoiava Osmar Dias para o governo.

Gustavo Fruet (PSDB) terminou logo atrás, com 2.502.805 votos e 23,10%, enquanto Ricardo Barros (PP) alcançou 20,22%. A diferença entre Requião e Fruet pela segunda vaga foi de somente 188.752 votos, ou 1,74 ponto percentual.

A eleição demonstrou que nem mesmo vitórias simultâneas para presidente e governador dentro do Paraná garantem a reprodução do resultado no Senado. Serra e Beto venceram as disputas executivas, mas as duas cadeiras senatoriais foram entregues a integrantes do palanque adversário.

2014: Alvaro chega a 77% e ultrapassa o eleitorado tucano

Alvaro Dias (PSDB) obteve em 2014 a maior votação proporcional de toda a série. Foram 4.101.848 votos, equivalentes a 77% dos válidos. Ricardo Gomyde (PCdoB) ficou em segundo lugar, com 666.438 votos e 12,51%, enquanto Marcelo Almeida (PMDB) recebeu 465.263 votos e 8,73%.

A diferença entre o primeiro e o segundo colocados superou 3,4 milhões de votos e chegou a 64,49 pontos percentuais. Nenhuma outra eleição do período apresentou uma concentração semelhante em torno de um único candidato.

Alvaro teve desempenho muito superior ao dos vencedores dos demais cargos majoritários no estado. Beto Richa (PSDB) foi reeleito governador com 55,67%, e Aécio Neves (PSDB) liderou a votação presidencial no Paraná com 49,79%. Alvaro ficou mais de 21 pontos acima de Beto e mais de 27 pontos acima de Aécio.

Não houve, nesse caso, uma inversão política: os três candidatos pertenciam ao PSDB. O descolamento ocorreu na magnitude. A votação de Alvaro ultrapassou amplamente o eleitorado que escolheu os demais candidatos tucanos.

Também houve pouca transferência das candidaturas de oposição para o Senado. Roberto Requião (PMDB) recebeu 1.634.316 votos para governador, mas Marcelo Almeida, candidato de sua coligação ao Senado, terminou com 465.263. Dilma Rousseff (PT) teve 32,54% dos votos presidenciais válidos, enquanto Ricardo Gomyde, apoiado por uma coligação liderada pelo PT, ficou com 12,51%.

2018: Oriovisto e Arns deixam dois ex-governadores sem mandato

A eleição de 2018 produziu a maior ruptura da série com os nomes tradicionais da política estadual. Oriovisto Guimarães (Podemos), que disputava pela primeira vez um cargo eletivo, liderou com 2.957.239 votos, ou 29,17%.

Flávio Arns (Rede) ficou com a segunda vaga ao alcançar 2.331.740 votos e 23%. Roberto Requião (MDB), que buscava a reeleição, terminou em terceiro lugar, com 1.528.291 votos e 15,08%.

Alex Canziani (PTB) veio em seguida, com 12,87%. Beto Richa (PSDB), também ex-governador, recebeu 377.872 votos, ou 3,73%. A segunda vaga foi decidida por uma diferença de 803.449 votos entre Arns e Requião.

No mesmo dia, Jair Bolsonaro (PSL) recebeu 56,89% dos votos presidenciais válidos no Paraná e Ratinho Junior (PSD) foi eleito governador com 59,99%. A concentração observada nesses dois cargos não se repetiu no Senado, onde nenhuma candidatura alcançou 30%.

Oriovisto e Arns também superaram dois dos políticos mais conhecidos do estado. Roberto Requião havia governado o Paraná por três mandatos, enquanto Beto Richa encerrava seu segundo mandato consecutivo. A eleição mostrou que notoriedade não garante, por si só, a transferência de votos para o Senado.

2022: domínio nos Executivos se fragmenta no Senado

A eleição de 2022 combinou concentração e fragmentação. Ratinho Junior (PSD) obteve 69,64% dos votos para governador e Jair Bolsonaro (PL) chegou a 55,26% na disputa presidencial dentro do Paraná.

No Senado, porém, três candidaturas situadas do centro à direita dividiram 86,56% dos votos válidos. Sergio Moro (União Brasil) venceu com 1.953.188 votos, ou 33,50%. Paulo Martins (PL) alcançou 1.697.962, equivalentes a 29,12%, e Alvaro Dias (Podemos) ficou em terceiro lugar, com 1.396.089 votos e 23,94%.

A diferença entre Moro e Paulo Martins foi de 255.226 votos e 4,38 pontos percentuais. A divisão permitiu que o vencedor fosse eleito com praticamente metade do percentual obtido por Ratinho Junior para governador.

A dissociação também apareceu no campo oposto. Rosane Ferreira (PV) recebeu 475.597 votos, ou 8,16%, diante dos 35,99% obtidos por Lula (PT) para presidente e dos 26,23% alcançados por Roberto Requião (PT) para governador. Vale registrar que, neste ano, no campo da esquerda, houve um voto “anti-Moro”, resultando em apoios velados a Alvaro Dias.

Em vez de reproduzir a concentração das eleições executivas, a disputa pelo Senado fragmentou tanto o campo majoritário quanto a oposição. Ratinho e Bolsonaro não transferiram integralmente suas votações a um único candidato, enquanto Rosane ficou muito abaixo dos candidatos oficialmente apoiados pela esquerda para presidente e governador.

Voto ao Senado segue lógica própria no Paraná

O voto ao Senado se descolou das demais disputas majoritárias de maneiras diferentes ao longo do período. Em 1998 e 2014, prevaleceu a força eleitoral individual de Alvaro Dias, que obteve percentuais superiores aos dos candidatos do próprio partido para os cargos executivos.

Em 2010, o Paraná entregou as duas vagas a uma coligação derrotada para o governo e vinculada à candidatura presidencial que ficou em segundo lugar no estado. Em 2002, 2018 e 2022, a quantidade e a competitividade das candidaturas fragmentaram campos que apareceram de maneira mais concentrada nas eleições para presidente ou governador.

A série não indica que o paranaense sempre vote em direções políticas opostas para os três cargos. Mostra algo mais específico: o resultado para o Senado não pode ser deduzido automaticamente da votação para presidente ou governador.

Notoriedade pessoal, número de vagas em disputa, composição das chapas, capacidade de transferência dos palanques e oferta de candidaturas competitivas alteram significativamente a eleição senatorial. Em alguns anos, esses fatores produziram votações pessoais avassaladoras. Em outros, abriram espaço para o voto cruzado ou para a divisão do campo predominante.

Consulte os resultados eleitorais

O TRE-PR mantém uma página com os resultados das eleições gerais realizadas no Paraná (link aqui para os arquivos .zip), com os relatórios finais e arquivos de votação por município, zona e seção eleitoral. Os dados gerais estão espelhados no repositório de estatísticas do Tribunal Superior Eleitoral (link aqui). Se quiser consultar a visualização feita pelo portal UOL Notícias, clique sobre os anos 1998 (PresidênciaGoverno Senado), 20022006201020142018 2022.

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