Nove instituições de ensino estão representadas na final; vencedores serão conhecidos em 10 de dezembro.
Trabalhos de estudantes de nove instituições de ensino superior chegaram à final da categoria Universitária do 8º Prêmio Livre.jor de Jornalismo-Mosca. A seleção reúne 13 reportagens, documentários, podcasts e projetos multimídia que usam dados, documentos públicos e ferramentas de transparência para investigar temas que vão dos gastos públicos e direitos sociais ao meio ambiente, tecnologia e desigualdades.
A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) é a instituição com mais trabalhos na final, quatro, seguida pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com dois. Também estão representados o Centro Universitário FAM, a Universidade Federal de Goiás (UFG), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), a Universidade Federal do Paraná (UFPR), a Universidade Federal do Cariri (UFCA) e a Universidade de São Paulo (USP).
Os finalistas foram escolhidos entre 56 trabalhos inscritos na categoria Universitária. Os vencedores serão anunciados em 10 de dezembro de 2026, Dia Internacional dos Direitos Humanos, conforme o cronograma do Prêmio Mosca. A divulgação dos finalistas ocorre nesta segunda-feira (2), Dia Internacional pelo Fim da Impunidade em Crimes contra Jornalistas.
Trabalho, rua e diversidade
Do Centro Universitário FAM, estão na final Danielly Carvalho, Nicolas Francisco, Rayssa Freires e Sofia Peres, com “Mulheres além do trabalho”. O documentário acompanha trabalhadoras de diferentes profissões para mostrar como a jornada em escala 6×1 repercute na vida das mulheres para além do emprego. A produção ouviu dez trabalhadoras, entre auxiliares de limpeza, vendedoras, ajudantes gerais e embaladoras.
A situação da população em situação de rua é o tema de “Sem albergues durante o dia, população em situação de rua enfrenta o desamparo”, de Fabiola Santos Correa, da UFRGS. A grande reportagem do Portal Humanista aborda o cotidiano de pessoas em situação de rua em Porto Alegre e as dificuldades de acesso à rede de acolhimento durante o dia.
Também entre os finalistas está “Bixas do Mato”, de Moreira Carmo, da UFRJ. Em seis episódios, o podcast narrativo conta histórias de pessoas LGBTQIA+ que vivem em Albertina, município de cerca de 3 mil habitantes no interior de Minas Gerais, discutindo as experiências de viver sexualidade e identidade de gênero distante dos grandes centros urbanos.
Segurança, direitos e políticas públicas
Dois trabalhos da UFSC investigaram políticas públicas na capital catarinense. Luiza Cusato Vianna e Nathaly Bittencourt são finalistas com “‘Voluntários’ da segurança aumentam em 400% os gastos com a temporada de verão em Florianópolis”. A reportagem do Jornal-Laboratório Zero usou pedidos via Lei de Acesso à Informação e dados do Portal da Transparência para acompanhar os gastos com o programa municipal de agentes voluntários de segurança. Os ressarcimentos previstos chegavam a R$ 1,5 milhão em quatro meses de funcionamento.
Também da UFSC, Arthur Westphalen Naschenweng Alves e Maitê Silveira Cardoso concorrem com “Sem fiscalização, recusa de vacinação em crianças vira atalho para matrícula escolar na capital catarinense”. A apuração mostrou que escolas municipais recebiam certificados de alunos com esquema vacinal incompleto, enquanto unidades desconheciam a obrigação prevista em lei estadual de comunicar ao Conselho Tutelar os casos não regularizados.
A rede de atendimento às mulheres vítimas de violência é investigada por Camila Soares Borges e Endy Christine, da UFSC, em “SC não tem delegacia da mulher 24h, nem abrigos suficientes para vítimas”. A reportagem mostra as limitações da estrutura de proteção, especialmente fora dos maiores centros: nenhuma delegacia especializada do estado funcionava 24 horas e os abrigos estavam concentrados em apenas 13 dos 295 municípios catarinenses.
Dados revelam gastos e funcionamento do poder público
Na UFPR, Alana Morzelli, Ana Clara Osinski, Alice Lima, Giuliano Carbonari e Isadora Kovalczuk são finalistas com “Não dá nada: a impunidade do assédio nas escolas estaduais do Paraná”. A investigação analisou processos administrativos disciplinares da Secretaria de Estado da Educação e identificou 813 denúncias de assédio sexual envolvendo professores em três anos, discutindo os mecanismos de apuração e responsabilização dentro da rede estadual.
Da USP, Alex Teruel, Daniela Gonçalves, Davi Alves, Fernanda Franco, João Victor Vilasbôas, Maria Eduarda Oliveira e Samuel Amaral assinam “Sem resultados efetivos, Prefeitura já gastou mais de R$ 100 milhões com o Smart Sampa”, publicada pela Ponte Jornalismo. Com informações obtidas por LAI, o trabalho investigou gastos, armazenamento de imagens e funcionamento do sistema paulistano de videomonitoramento e reconhecimento facial.
Sofia Souza Costa, da UFG, é finalista com a reportagem da Agência Pública “Candidato à Presidência, Caiado transformou Goiás em laboratório de leis para Big Techs”. A investigação acompanhou a rápida tramitação de leis estaduais envolvendo inteligência artificial, data centers e minerais críticos e examinou relações dessas medidas com interesses de grandes empresas de tecnologia, além de questões de transparência e soberania digital.
Meio ambiente e transformação das cidades
Três trabalhos finalistas têm como eixo a relação entre território, investimento público e pressão ambiental.
Da UFSB, Karina Cassimiro, Deivison Chioke, Júlio Lem e Ariane Stolfi concorrem com “Lagoa Azul, território ameaçado”. O documentário aborda a luta pela preservação da Lagoa Azul, em Arraial d’Ajuda, Porto Seguro, diante da degradação ambiental, da redução do volume de água e da pressão da especulação imobiliária.
No Ceará, Cadu Silva, da UFCA, investigou o contraste entre investimentos públicos e as condições do Parque Ecológico das Timbaúbas, em Juazeiro do Norte. “Com quase R$ 5 mi em investimentos públicos, Parque das Timbaúbas apresenta constante degradação ambiental” contabilizou cerca de R$ 4,8 milhões destinados a intervenções no espaço e registrou problemas como estruturas degradadas, lixo e despejo de esgoto.
Já Gabriele Oliveira e Camila Borges, da UFSC, assinam “Campeche, Centro e Rio Vermelho são os maiores alvos da especulação imobiliária em Florianópolis nos últimos anos”. A reportagem analisou 883 alvarás de construção emitidos entre maio de 2023 e maio de 2025 e identificou a concentração das novas construções nesses três bairros, relacionando o avanço imobiliário a questões de mobilidade, saneamento e infraestrutura urbana.
Mulheres ainda são exceção na gestão do futebol gaúcho
A UFRGS tem ainda entre os finalistas Julia Cristofoli Campos, autora de “Exceções à regra: mulheres ainda são minoria em cargos de gestão do futebol gaúcho”.
A estudante levantou 139 cargos de gestão e governança nos clubes que disputaram a primeira divisão do Campeonato Gaúcho em 2026. Apenas 13 eram ocupados por mulheres, o equivalente a 9,4%, e três dos clubes analisados não tinham nenhuma mulher em posições de liderança.
Vencedores em dezembro
A categoria Universitária é uma das três do Prêmio Mosca 2026, ao lado da Profissional e do Troféu Rastilho. O prêmio reconhece trabalhos ligados ao uso de dados e documentos públicos, ao acesso à informação e à cultura da transparência.
Os vencedores das categorias Universitária e Profissional serão anunciados em 10 de dezembro, enquanto o resultado do Troféu Rastilho será conhecido antes, em 1º de dezembro.
Finalistas da Profissional serão divulgados na próxima quarta-feira, dia 4.