Último ano para o qual existem estatísticas oficiais, estima-se que, em 2024, 7,6 milhões de toneladas de areia ilegal tenham sido utilizadas no Paraná, potencialmente movimentando R$ 588 milhões em negócios ambientalmente suspeitos e sonegando pelo menos R$ 1,8 milhão em impostos associados à mineração, cuja maior parte ficaria nos municípios impacatdos pela extração.

É isto que mostra o cruzamento dos dados da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP) com os registros da Agência Nacional de Mineração (ANM), utilizando uma metodologia internacional para aferição de crimes ambientais, difundida no Brasil pelo policial federal Luís Fernando Ramadon. A técnica considera a proporção de quatro partes de areia para cada parte cimento.

No ano de 2024, segundo a ABCP, o Paraná registrou consumo de 4.711.493 toneladas de cimento, o que implicaria 18.845.972 toneladas de areia necessárias. No mesmo período, a produção oficial de areia somou 11.172.011,86 toneladas. A diferença é de 7.673.960,14 toneladas, logo 40,72% da areia utilizada naquele ano potencialmente tem origem ilegal, uma vez que a demanda foi maior que a produção local. 

A estimativa não é prova direta de crime: o “déficit” pode incluir fatores como circulação interestadual do insumo, estoques, reaproveitamento e variações de traço no concreto. Ainda assim, a magnitude dessa diferença é um indicador útil para mensurar o risco de informalidade e a pressão sobre áreas de extração — especialmente quando se trata de um bem mineral associado a impactos em leitos de rios e margens.

Até porque há déficit crônico de areia legalizada no Brasil ante o consumo registrado de cimento.

Da tonelada ao real: como chegamos aos R$ 588 milhões

Para transformar o déficit em valor de mercado, a tonelagem “ilegal” estimada foi convertida em volume a partir de um parâmetro técnico amplamente usado para agregados: areia média seca com densidade aproximada de 1.500 kg/m³ (ou 1,5 t/m³). Com isso, as 7,67 milhões de toneladas correspondem a 5.115.973 m³.

Sobre esse volume foi aplicado um preço de referência do SINAPI (sistema oficial de custos da construção civil) para areia média/lavada no fim de 2025. O resultado é um faturamento potencial de R$ 588 milhões, a preços de referência do período.

CFEM: estimativa proporcional com base no que é arrecadado oficialmente

Em vez de estimar a CFEM (Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais) por alíquota e preço, a reportagem adota um cálculo proporcional: usa-se o que foi arrecadado na produção oficial e projeta-se quanto isso representaria se o déficit estimado tivesse sido declarado, mantendo a mesma arrecadação média por tonelada.

No Paraná, dados oficiais de arrecadação por substância apontam que a CFEM da areia em 2024 foi de R$ 2.714.645,64. Como o déficit estimado (7,67 milhões t) equivale a 68,69% da produção oficial (11,17 milhões t), a CFEM potencial associada a esse volume seria de R$ 1.864.667. Dos valores decorrentes dessa arrecadação, 65% iriam para os municípios onde houve a extração, 23% para o Estado e 12% para a União.

No Brasil, o déficit de areia foi de 153 milhões de toneladas em 2024

No agregado nacional, o consumo de cimento em 2024 foi de 64.742.118 toneladas, o que levaria a uma necessidade estimada de 258.968.472 toneladas de areia. A produção oficial de areia ficou em 105.143.875,30 toneladas, deixando um déficit de 153.824.596,70 toneladas, ou seja, 59,40% da previsão de consumo. Aplicando as mesmas premissas de conversão, estamos falando de um mercado ilegal de quase R$ 12 bilhões. A sonegação projetada de CFEM é de  R$ 56,4 milhões.

Em volume absoluto (toneladas), o déficit se concentra onde o mercado de construção civil é maior — e o Paraná aparece na 7ª posição em 2024.

Posição

Estado

Areia “ilegal” estimada (t)

% “ilegal”

1

São Paulo

24.569.482,72

42,67

2

Minas Gerais

21.456.536,19

72,64

3

Bahia

13.002.043,17

79,74

4

Goiás

9.615.255,17

77,08

5

Santa Catarina

9.241.440,78

51,98

6

Rio de Janeiro

8.667.010,87

62,15

7

Paraná

7.673.960,14

40,72

8

Ceará

7.595.661,18

85,03

9

Pernambuco

6.828.809,31

79,43

10

Pará

4.718.519,33

70,42

Dois pontos chamam atenção nesse recorte. Primeiro: o Paraná figura entre os maiores déficits do país em volume, porque o estado está entre os grandes mercados consumidores de cimento — e, portanto, de areia. Segundo: o percentual paranaense (40,72%) é menor do que o de vários estados que aparecem no ranking, como Ceará (85,03%), Bahia (79,74%), Pernambuco (79,43%) e Goiás (77,08%).

Em termos práticos, isso significa que o Paraná pode ter um déficit grande em toneladas por causa do tamanho do mercado, mas, proporcionalmente, declara uma fatia maior da areia que “deveria” estar sendo consumida — ao contrário de estados em que a produção oficial cobre apenas uma parcela muito menor da demanda estimada.

Estimativa do déficit de areia no Paraná (2024)

Indicador

Valor

Consumo de cimento (t)

4.711.493,00

Areia necessária (t)

18.845.972,00

Areia produzida (t)

11.172.011,86

Areia “ilegal” estimada (t)

7.673.960,14

Nível de “ilegalidade”

40,72%

Areia “ilegal” estimada (m³)

5.115.973

Faturamento estimado (R$)

588.336.944

CFEM da areia — oficial (R$)

2.714.645,64

CFEM estimada (proporcional) (R$)

1.864.667

   

Estimativa do déficit de areia no Brasil (2024)

Indicador

Valor

Consumo de cimento (t)

64.742.118,00

Areia necessária (t)

258.968.472,00

Areia produzida (t)

105.143.875,30

Areia “ilegal” estimada (t)

153.824.596,70

Nível de “ilegalidade”

59,40%

Areia “ilegal” estimada (m³)

102.549.731

Faturamento estimado (R$)

11.793.219.080

CFEM da areia — oficial (R$)

38.554.848,01

CFEM estimada (proporcional) (R$)

56.405.415

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