Em 2022, 1,65 milhão de paranaenses não foram votar (19,48%), maior número absoluto da série desde 1998. Proporcionalmente, 21% faltaram em 1998, mas eleitorado era menor.
A falta de entusiasmo com as Eleições 2026 pode levar mais eleitores a deixarem de votar neste domingo? A possibilidade tem sido levantada às vésperas do primeiro turno, mas, para o Paraná, uma eventual alta partirá de um patamar que já foi elevado quatro anos atrás. Em 2022, aproximadamente 1,65 milhão de paranaenses não compareceram às urnas, ou 19,48% do eleitorado. Foi o maior número absoluto de ausentes na série das eleições gerais analisada pela Livre.jor, desde 1998.
Em percentual, porém, 2022 ainda não foi o ponto mais alto. Nas eleições gerais de 1998, 21,12% dos eleitores paranaenses não votaram, cerca de 1,35 milhão de pessoas. A diferença entre os dois “recordes” se explica pelo crescimento do eleitorado: há mais pessoas aptas a votar hoje e, por isso, uma taxa menor pode produzir um número absoluto maior de ausentes.
Neste domingo, 8.609.026 eleitores estão aptos a ir às urnas. Se simplesmente repetirem a taxa de abstenção de quatro anos atrás, aproximadamente 1,68 milhão de pessoas deixarão de votar — o suficiente para produzir novamente o maior número absoluto de ausentes da série, mesmo sem aumento proporcional da abstenção.
Abstenção ficou praticamente parada por 16 anos
O salto de 2022 chama atenção porque interrompeu uma longa estabilidade.
Depois dos 21,12% registrados em 1998, a abstenção caiu para 16,18% em 2002. Nas quatro eleições seguintes, variou pouco: 16,20% em 2006; 16,46% em 2010; 16,85% em 2014; e 16,96% em 2018.
| Eleição | Eleitorado aproximado | Eleitores ausentes | Abstenção |
|---|---|---|---|
| 1998 | 6,38 milhões | 1,35 milhão | 21,12% |
| 2002 | 6,66 milhões | 1,08 milhão | 16,18% |
| 2006 | 7,12 milhões | 1,15 milhão | 16,20% |
| 2010 | 7,60 milhões | 1,25 milhão | 16,46% |
| 2014 | 7,86 milhões | 1,32 milhão | 16,85% |
| 2018 | 7,97 milhões | 1,35 milhão | 16,96% |
| 2022 | 8,48 milhões* | 1,65 milhão | 19,48% |
*Na totalização federal. A totalização das eleições estaduais de 2022 registra universo ligeiramente diferente e abstenção de 19,50%.
O que ocorreu entre 2002 e 2018 foi uma espécie de platô eleitoral. Em 16 anos, a taxa cresceu apenas 0,78 ponto percentual. De 2018 para 2022, saltou aproximadamente 2,5 pontos de uma única vez. Os dados históricos podem ser consultados nas bases da Justiça Eleitoral; o TRE-PR mantém os resultados anteriores e disponibiliza os arquivos completos pelo Portal de Dados Abertos.
A média simples das eleições de 2002 a 2022 fica em aproximadamente 17% de abstenção. Por essa referência, 2022 esteve mais de dois pontos acima do comportamento médio das últimas seis eleições gerais.
Para bater 1998, abstenção teria de superar 21,12%
O crescimento do eleitorado também muda a maneira de observar os números de domingo.
Com 8.609.026 pessoas aptas, a repetição exata dos 19,48% de 2022 produziria aproximadamente 1,68 milhão de ausentes. Seria um novo máximo absoluto dentro da série analisada pela Livre.jor.
Para ultrapassar também o maior percentual da série, registrado em 1998, a abstenção de domingo precisaria superar 21,12%. Isso corresponderia hoje a aproximadamente 1,82 milhão de eleitores sem comparecer.
| Cenário para 2026 | Abstenção | Ausentes aproximados |
|---|---|---|
| Média de 2002 a 2022 | ~17,0% | 1,47 milhão |
| Repetição de 2022 | 19,48% | 1,68 milhão |
| Superação da taxa de 1998 | acima de 21,12% | mais de 1,82 milhão |
| Se repetir o aumento de 2018→2022 | ~22,0% | 1,89 milhão |
O último cenário é apenas um exercício matemático. Se a abstenção crescesse novamente cerca de 2,5 pontos percentuais, como ocorreu de 2018 para 2022, chegaria perto de 22%. Isso significaria quase 1,9 milhão de ausentes.
Não há, porém, base estatística para afirmar que esse crescimento vá se repetir.
Eleições municipais de 2024 chegaram a 22,96%
Há um dado mais recente que reforça a atenção sobre o comparecimento, mas exige cautela na comparação.
Nas eleições municipais de 2024, a abstenção no Paraná chegou a 22,96%, aproximadamente dois milhões de eleitores, segundo o TRE-PR. O tribunal tem usado tanto o resultado de 2022 quanto o de 2024 em sua campanha deste ano para incentivar o comparecimento às urnas.
Eleições municipais e gerais, entretanto, não mobilizam necessariamente o eleitorado da mesma maneira. Em 2024 foram escolhidos prefeitos e vereadores; neste domingo estarão em disputa Presidência da República, Governo do Paraná, duas cadeiras no Senado, Câmara dos Deputados e Assembleia Legislativa.
Por isso, os 22,96% de dois anos atrás funcionam como um dado recente de participação eleitoral, não como uma previsão direta do que ocorrerá em 2026.
Número de ausentes já cresceu mesmo quando percentual ficou estável
A série também mostra como o crescimento do eleitorado interfere no tamanho absoluto da abstenção.
Em 2002, pouco mais de 1,07 milhão de paranaenses faltaram à eleição. Em 2018, mesmo com a taxa ainda na casa dos 17%, já eram 1,35 milhão. Em 2022, o salto do percentual e o aumento da população eleitoral levaram o total a aproximadamente 1,65 milhão.
Em 2026, o Paraná alcançou 8,609 milhões de eleitores e passou a ter o quinto maior colégio eleitoral do país, ultrapassando o Rio Grande do Sul. Destes, cerca de 1,12 milhão, ou 13%, têm voto facultativo.
O TRE-PR iniciou uma campanha específica contra a abstenção e vem lembrando que o não comparecimento não altera a regra de escolha: os candidatos são definidos pelos votos daqueles que efetivamente participam da eleição.
Abstenção também mexe na eleição dos deputados
O tamanho da abstenção será importante não apenas para medir a participação dos paranaenses.
Nas eleições para deputado federal e estadual, quanto menos pessoas comparecem, menor tende a ser — mantidas as demais condições — o universo de votos válidos usado no cálculo do quociente eleitoral.
É por isso que um Paraná com 8,6 milhões de eleitores não terá um quociente calculado sobre 8,6 milhões de votos. Primeiro saem da conta os ausentes; depois, os votos em branco e nulos. Só o que restar determinará quantos votos representarão, em média, cada uma das 30 cadeiras de deputado federal e 54 de deputado estadual disputadas no estado.
Em 2022, a abstenção recorde em números absolutos ajudou a reduzir esse universo. Neste domingo, saber se o Paraná voltou ao padrão histórico de cerca de 17%, repetiu os quase 19,5% de quatro anos atrás ou avançou para um patamar superior será uma das primeiras informações necessárias para entender também a disputa proporcional.
Metodologia: a Livre.jor considerou os resultados do primeiro turno das eleições gerais no Paraná de 1998 a 2022. Para 2022, a taxa de 19,48% corresponde à eleição federal; na circunscrição estadual, o TRE-PR registrou 19,50%. Os cenários de 2026 são exercícios matemáticos aplicados aos 8.609.026 eleitores aptos e não constituem projeções de comparecimento.