Esquerda unificada e divisão da direita abrem caminho para o pedetista chegar ao segundo turno.
Requião Filho tem chance. Não é o favorito para governar o Paraná, não está perto de liderar as pesquisas e ainda enfrenta uma rejeição considerável. Mas os resultados eleitorais do estado desde 1998 mostram que sua candidatura reúne condições reais de chegar ao segundo turno.
A diferença é importante. Para sobreviver ao primeiro domingo de outubro, Requião Filho não precisa alcançar Sergio Moro. Basta preservar a segunda colocação e impedir que o líder ultrapasse a metade dos votos válidos. Seu caminho depende, portanto, de a esquerda permanecer unida, enquanto a centro-direita está fragmentada.
A primeira condição está encaminhada. O PDT acertou uma frente com a Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV. Rede e PSOL também já participaram de atos da pré-candidatura. É bastante provável que PSB se junte ao grupo, senão o partido, pelo menos suas principais lideranças.
A segunda condição é que é o problema de Requião Filho. Sergio Moro lidera, mas divide o campo da direita e da centro-direita com o candidato apoiado pelo governador Ratinho Junior, Sandro Alex, e, possivelmente, com Rafael Greca. A briga entre a trinca Moro-Alex-Greca é fundamental para que haja segundo turno na disputa pelo Palácio Iguaçu.
O tamanho do sobrenome Requião
A primeira referência para calcular o potencial de Requião Filho é o desempenho eleitoral de Roberto Requião, pai do candidato. Nas três últimas eleições que disputou, o ex-governador permaneceu numa faixa estreita de aproximadamente 1,5 milhão a 1,6 milhão de votos.
Em 2014, Requião recebeu 1.634.316 votos para governador. Quatro anos depois, teve 1.528.291 para o Senado. Em 2022, voltou a concorrer ao governo e alcançou 1.598.204 votos. A repetição desse patamar em contextos tão diferentes indica a existência de um eleitorado que atribui valor ao sobrenome.
Em 2022, 1,598 milhão de votos corresponderam a 26,23% dos válidos para governador. Em uma disputa fragmentada, uma votação semelhante pode colocar um candidato no segundo turno. Foi exatamente o que aconteceu com Roberto Requião em 2002.
Em 2002, 26% bastaram
Roberto Requião começou a eleição de 2002 com 1.347.353 votos, ou 26,17% dos válidos. Alvaro Dias liderou com 31,40%. Beto Richa teve 17,27%, e Padre Roque Zimmermann, candidato do PT, alcançou 16,36%.
Mesmo com apenas um quarto dos votos válidos, Requião avançou. No segundo turno, saltou para 2.681.811 votos e venceu Alvaro Dias com 55,15%.
A eleição oferece a comparação histórica mais útil para Requião Filho. Ela mostra que não é necessário chegar a 35% ou 40% para passar à rodada seguinte. Uma candidatura pode avançar com aproximadamente 26%, desde que o primeiro colocado fique abaixo dos 50% e os demais candidatos continuem competitivos.
Existe, porém, uma diferença favorável a Requião Filho. Em 2002, Roberto Requião concorria diretamente com uma candidatura petista que recebeu mais de 842 mil votos. No cenário considerado para 2026, PT, PDT, PCdoB, PV, PSOL e Rede estarão no mesmo campo.
A ausência de um concorrente relevante à esquerda elimina o risco de repetição daquela divisão.
Não repetir a armadilha de 2014
O que pode acontecer quando a oposição estadual se divide ficou ainda mais evidente em 2014.
Naquele ano, Roberto Requião recebeu 1.634.316 votos, ou 27,56%. Gleisi Hoffmann, candidata do PT, teve outros 881.857 votos, ou 14,87%. Somadas apenas como medida do tamanho agregado da oposição, as duas candidaturas alcançaram mais de 2,5 milhões de votos e 42% dos válidos.
Mas eleições não são vencidas pela soma posterior de candidaturas derrotadas. Beto Richa concentrou 55,67% e encerrou a disputa no primeiro turno.
A aliança construída para 2026 impede que Requião Filho caia nessa mesma armadilha. Pela primeira vez desde que Roberto Requião concorreu pelo antigo PMDB, o sobrenome estará associado a uma candidatura que tende a reunir praticamente todo o campo partidário da esquerda paranaense.
Isso não significa que todos os eleitores desses partidos votarão nele. Significa que não haverá outro candidato competitivo disputando institucionalmente o mesmo espaço, consumindo tempo de televisão, estrutura partidária, militância e votos.
Requião já foi maior que Lula no Paraná
A série histórica também mostra que o voto em Requião nem sempre esteve limitado ao eleitorado petista.
Em 1998, Roberto Requião recebeu 1.786.115 votos para governador, 617 mil a mais do que Lula obteve para presidente no Paraná. Requião alcançou 45,91% dos válidos, diante dos 27,78% do petista.
Em 2006, Requião voltou a superar Lula no primeiro turno. Foram 2.321.217 votos para o governador, contra 2.111.589 para o presidente. No segundo turno, os dois resultados ficaram quase idênticos: Requião recebeu 2.668.611 votos, enquanto Lula alcançou 2.663.423 no estado.
A proximidade não significa que fossem exatamente os mesmos eleitores. Houve pessoas que votaram em Requião e Geraldo Alckmin, assim como eleitores que combinaram Lula e Osmar Dias. O dado mostra, porém, que o requianismo conseguia reunir a base da esquerda e avançar sobre uma faixa relevante do centro político e do eleitorado popular conservador.
Em 2010, Osmar Dias demonstrou fenômeno semelhante. Candidato ao governo numa coligação apoiada pelo PT, recebeu 2.645.341 votos, 334 mil a mais que Dilma Rousseff no Paraná. Uma candidatura estadual oposicionista, portanto, podia superar a referência presidencial da esquerda quando apresentava identidade e alcance próprios.
Esse é o eleitorado adicional que Requião Filho precisa buscar. A esquerda unificada pode lhe oferecer uma base, mas a vaga no segundo turno dependerá da capacidade de parecer maior que ela.
Os 765 mil votos disponíveis — mas não garantidos
Em 2022, a relação se inverteu. Lula recebeu 2.363.492 votos no primeiro turno presidencial no Paraná. Roberto Requião teve 1.598.204 para governador. A diferença foi de 765.288 votos.
Esses eleitores não formam uma reserva pronta para Requião Filho. Parte deles votou em Ratinho Junior, parte escolheu outros candidatos e parte pode ter anulado ou deixado em branco a votação para governador. Também não é possível saber, apenas pelos totais estaduais, quantos eleitores de Requião votaram em outros candidatos presidenciais.
Mas os 765 mil votos delimitam um espaço político concreto. Houve no Paraná um contingente expressivo disposto a votar em Lula, mas não em Roberto Requião.
Requião Filho não precisa recuperar todo esse eleitorado. Se preservar aproximadamente 1,6 milhão de votos e conquistar mais 200 mil ou 300 mil entre aqueles que apoiaram Lula, mas abandonaram a candidatura estadual em 2022, chegaria à faixa de 1,8 milhão a 1,9 milhão.
Tomando a votação válida de 2022 como referência, isso representaria algo próximo de 30%. É um patamar suficiente para disputar o segundo turno numa eleição dividida entre Moro, o candidato governista e Greca.
A unificação partidária torna essa recuperação mais plausível. Requião Filho terá o apoio formal do PT, a associação com o palanque presidencial e uma chapa ao Senado que ajuda a organizar a campanha. O desafio será converter estrutura partidária em votos que Roberto Requião não conseguiu obter quatro anos antes.
O voto útil em Rafael Greca
Isso cria uma situação curiosa. Requião Filho precisa derrotar Greca e Sandro Alex na disputa pela segunda colocação, mas também depende de que os dois permaneçam suficientemente fortes para impedir que Moro vença no primeiro turno. O candidato do PDT não precisa tomar todos os votos dos adversários. Precisa que eles continuem tomando votos uns dos outros.
Há um movimento no eleitorado paranaense, especialmente na capital, de votar em Rafael Greca no primeiro turno por acreditar que ele teria chances reais de vencer Sergio Moro numa disputa mano a mano. Esse pensamento ronda a centro-esquerda, que já fez algo semelhante há quatro anos, quando despejou votos em Alvaro Dias, achando que ele poderia ultrapassar o ex-juiz de Maringá na corrida pelo Senado.
Chance não é favoritismo
Ainda não está demonstrado que Requião Filho herdará integralmente a votação do pai. Ele construiu carreira própria na Assembleia Legislativa, mas nunca disputou uma eleição majoritária estadual. A campanha precisará tornar o candidato conhecido para além dos eleitores politicamente mais atentos e das regiões onde o sobrenome já conserva força.
Há ainda o risco de concentração do voto à direita. Caso Greca não concorra e o candidato de Ratinho Junior não avance, Moro poderá absorver uma parcela suficiente do campo conservador para ameaçar uma vitória no primeiro turno. Nada disso elimina a chance. Apenas define suas condições.
Para se viabilizar, Requião Filho precisa manter a esquerda unida, conservar o patamar recente de aproximadamente 1,6 milhão de votos, recuperar uma parcela dos eleitores de Lula que não acompanharam Roberto Requião em 2022 e torcer para que Moro, Greca e o candidato governista continuem disputando o mesmo território.
Não precisa reconstruir os 45,91% obtidos por Roberto Requião em 1998. Não precisa alcançar Moro antes do primeiro turno. Talvez nem precise chegar a 30%.
Em 2002, 26,17% foram suficientes.
Requião Filho tem chance porque começa perto desse patamar, não enfrenta concorrência relevante à esquerda e observa três candidaturas disputarem o campo que hoje concentra a maioria dos votos paranaenses. Sua candidatura ao segundo turno depende menos de uma onda eleitoral do que de uma soma relativamente modesta de votos — e da incapacidade dos adversários de se unirem antes dele.