Levantamento da Livre.jor revela que o número foi digitado 906 vezes no segundo turno. Redes sociais levantam hipóteses sobre as motivações desses eleitores.

Não havia candidato a presidente com o número 88 nas Eleições 2026 no Brasil. Mesmo assim, 906 eleitores paranaenses digitaram esses dois algarismos na urna eletrônica e, conscientemente, anularam seus votos no segundo turno, realizado em 25 de outubro. No primeiro turno, em 4 de outubro, tinham sido 759 registros.

A polêmica reside no fato de o número 88 estar associado ao neonazismo, pela dupla referência à letra H, que é a oitava do alfabeto. “HH”, portanto, seria um código cifrado para a saudação “Heil Hitler”. Ao menos, foi essa a especulação levantada por reportagens que, igual fez a CNN, por exemplo, no dia 29 de outubro, contabilizaram 14.840 eleitores digitando os algarismos no segundo turno das Eleições 2026.

O que fizemos, na Livre.jor, foi reproduzir o levantamento, a partir do processamento dos Registros Digitais do Voto (RDVs) das urnas paranaenses, para regionalizar os dados. O levantamento detalhou as ocorrências por município, zona e seção eleitoral, permitindo verificar a distribuição geográfica desse número associado ao neonazismo. A maior parte apareceu dispersa, pois 68,9% dos 906 votos no 88 ocorreram em locais de votação que tiveram apenas um registro.

Ao mesmo tempo, se não foi um movimento coordenado, como explicar que a ocorrência do número 88 nas urnas cresceu 19,4% entre os dois turnos, no Paraná, na contramão da redução de 11% nos votos nulos para presidente? Vasculhando fóruns online, microblogs e redes sociais, como o Reddit e 4chan, não localizamos uma campanha organizada que validasse a suposição – ou a contradissesse.

MunicípioVotos 88 no 1ºVotos 88 no 2ºSeções com 88 no 2º
Curitiba165218210
Londrina505553
Ponta Grossa223333
São José dos Pinhais183231
Maringá233131
Cascavel122121
Paraná759906886

Resultado estadual: 193 municípios registraram votos no 88 no primeiro turno, 196 no segundo e 259 em pelo menos um dos turnos.

Curitiba concentrou 218 votos no 88

No Paraná, os 906 registros do 88 no segundo turno apareceram em 193 municípios no primeiro turno e em 196 no segundo. Considerando os dois pleitos, houve registros do algarismo em 259 das 399 cidades paranaenses.

Curitiba liderou em números absolutos, com 218 votos no 88 no segundo turno, ante 165 no primeiro. Depois aparecem Londrina, com 55 registros; Ponta Grossa, com 33; São José dos Pinhais, com 32; Maringá, com 31; e Cascavel, com 21.

Nas cidades menores, as proporções também chamam a atenção. Jacarezinho, por exemplo, registrou sete votos no 88 entre 341 votos nulos no segundo turno, equivalentes a 2,05%. A porcentagem é superior à média estadual, embora corresponda a uma quantidade pequena de ocorrências.

O levantamento identificou votos no 88 em 886 seções eleitorais paranaenses no segundo turno. Em 20 delas houve dois registros; nas demais, apenas um. Outras 122 seções tiveram pelo menos uma ocorrência em cada turno, o que não significa que tenham sido os mesmos eleitores.

A dispersão territorial não comprova uma mobilização organizada. Para avaliar se o 88 teve comportamento excepcional, a Livre.jor também comparou sua frequência com outros números repetidos: o 77 passou de 627 para 732 registros entre os turnos; o 66 caiu de 688 para 676; e o 99 permaneceu muito mais frequente, com 4.233 votos no segundo turno.

PR: Votos 88
na mesma seção
1º turno2º turno
1 voto728 seções866 seções
2 votos14 seções20 seções
3 votos1 seção0
Total de seções743886
Total de votos 88759906

Um voto que valeria por quatro? A pista da desinformação

Uma hipótese para parte dos registros envolve uma suposta “brincadeira” eleitoral que teria circulado às vésperas do segundo turno. Segundo relatos publicados posteriormente no X, uma mensagem apresentava o número 88 como uma maneira de multiplicar por quatro o voto destinado a Flávio Bolsonaro (PL), candidato com o número 22.

A conta era simples: 22 multiplicado por quatro resulta em 88. O funcionamento da urna, entretanto, não tem qualquer relação com essa operação matemática. Digitar 88 na votação presidencial de 2026 e confirmar a escolha produzia exclusivamente um voto nulo, sem beneficiar nenhum candidato.

Os relatos encontrados mencionam a circulação da mensagem em 24 de outubro, véspera do segundo turno. A Livre.jor, porém, não localizou a publicação original, não conseguiu confirmar sua data de divulgação nem dimensionar seu alcance. Portanto, não é possível afirmar que essa suposta campanha tenha produzido os votos registrados nas urnas.

A utilização de humor para induzir eleitores a digitar números incorretos não seria uma novidade nessas eleições. Em setembro, o Projeto Comprova já havia identificado publicações que apresentavam falsas sequências de teclas como maneiras de votar no ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que estava inelegível.

No Reddit, um comentário associa o 88 a Bolsonaro

A referência mais direta encontrada pela investigação apareceu em 25 de outubro, durante o próprio segundo turno, no fórum brasileiro r/farialimabets, do Reddit.

Em uma discussão intitulada “Indo votar, ainda indeciso”, um participante escreveu: “Vou votar 11 porque quero meio Bolsonaro”.

Outro respondeu: “tem que votar 88 Bolsonaro de 4”.

Na sequência, um terceiro perguntou: “1488?”

A conversa ocorreu em um fórum conhecido pelo humor, pela ironia e por publicações satíricas. Ainda assim, é significativa por demonstrar que a associação entre o número 88 e uma versão multiplicada do voto em Bolsonaro apareceu publicamente no dia da eleição.

A resposta com o número 1488 acrescenta uma segunda camada à discussão: a associação com a simbologia neonazista.

Em buscas por discussões brasileiras em fóruns anônimos, incluindo tópicos acessíveis do 4chan, a investigação não encontrou uma convocação coordenada e verificável para anular votos com o número 88. A ausência de resultados, contudo, não permite descartar publicações apagadas, não indexadas ou preservadas apenas em arquivos externos.

O que o 88 significa para o neonazismo?

O número 88 é reconhecido internacionalmente como um código utilizado por neonazistas e outros grupos supremacistas brancos. O significado decorre da posição da letra H no alfabeto: sendo a oitava letra, a combinação 88 representa HH, iniciais da saudação nazista “Heil Hitler”.

A organização norte-americana Anti-Defamation League (ADL), que mantém uma base de dados sobre símbolos de ódio, identifica o 88 como uma das referências numéricas recorrentes nesses movimentos.

O código também aparece combinado ao número 14, formando 1488, uma referência conhecida em ambientes supremacistas. Nesse caso, o 14 remete a um slogan racista de 14 palavras, enquanto o 88 representa a saudação nazista.

A própria ADL alerta, entretanto, que símbolos e números precisam ser interpretados em seu contexto. O uso de 88 não significa necessariamente adesão ao nazismo, assim como a simples presença da sequência numérica não permite identificar a ideologia de uma pessoa.

Essa distinção é especialmente importante quando se trata de votos secretos.

O que os dados revelam — e o que ainda não sabemos

Os registros digitais permitem verificar quais números foram efetivamente digitados nas urnas, sem identificar as pessoas que votaram. É possível localizar os registros por seção eleitoral, mas não associá-los individualmente a eleitores nem determinar suas motivações.

Assim, os dados do Paraná comprovam que o número 88 foi utilizado 1.665 vezes nas duas votações presidenciais de 2026, com crescimento entre os turnos e ocorrência em centenas de municípios.

As pesquisas em redes sociais também demonstram que havia referências públicas ao número durante a eleição, incluindo uma associação humorística com o candidato do PL e uma menção ao código 1488.

O que não está demonstrado é a existência de uma mobilização neonazista organizada para registrar esses votos. Também não há evidência suficiente para atribuí-los à suposta desinformação de que o 88 multiplicaria votos para Flávio Bolsonaro.

A diferença entre as hipóteses é relevante: uma manifestação política deliberada, uma provocação irônica, um erro de digitação e uma pessoa induzida por informação falsa podem produzir exatamente o mesmo registro numérico na urna.

Como fizemos esta apuração

A Livre.jor analisou arquivos em formato Parquet convertidos por terceiros a partir dos Registros Digitais do Voto (RDVs) das Eleições 2026, referentes ao primeiro e ao segundo turnos no Paraná. Foram selecionados os registros de votação para presidente e contabilizadas as ocorrências do número 88, com desagregação por município, zona e seção eleitoral. Não foi realizada validação criptográfica independente dos arquivos binários originais do TSE.

You May Also Like

Quantas pessoas gays, lésbicas e trans vivem nas cidades do Paraná?

“Quando o Estado brasileiro nega o Censo [à população LGBTQIA+], nega a…

Cadê a sua? Paraná é o 2º estado do país com mais lanchas por habitante

Com 11,4 milhões de habitantes e 33,1 mil lanchas registradas na Marinha…

Com Uber ou sem? Algumas informações sobre o aplicativo e seus rivais em Curitiba

A Câmara de vereadores aprovou, em primeiro turno, um projeto de lei…

89 municípios foram criados no Paraná depois da redemocratização

Apareceu no Serviço de Informação ao Cidadão do IBGE (Instituto Brasileiro de…